Curupira – O caçador selvagem

Esqueça quela imagem do garoto sorridente de cabelos em chamas. O curupira das lendas indígenas era bem mais selvagem e brutal do que isso.

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Curupira e sua montaria predileta.

Dono de uma força descomunal e velocidade estonteante, este ser tem o corpo pequeno, pés voltados para trás e cabelos vermelho vivo. Algumas lendas citam ele com o corpo recoberto de pelos, garras terríveis e dentes afiados de um verde que lembra os espinhos de uma planta em sua plenitude. Seu rosto, ao contrário do que dizem, não se parece com o de humano, mas algo aparentado a um animal. Mesmo assim, ele possui a capacidade de imitar a voz humana e, por vezes, utiliza dessa artimanha para separar grupos de caçadores e mata-los.

Matar, aliás, era a característica mais lembrada pelos nativos. O próprio padre Anchieta, primeiro erudito conhecido de nossas terras, escreveu sobre ele citando a violência da criatura.

“É cousa sabida e pela bôca de todos corre que há certos demôniose que os nativos chamam Corupira, que acometem aos índios muitas bezes no mato, dão-lhe açoites, machucam-nos e matam-nos. São testemunhas disto os nossos irmãos que viram algumas vêzes os mortos por êles. (…)”

As armas utilizadas pelo curupira eram variadas. Algumas lendas afirmam que ele usava as próprias garras para estraçalhar suas vítimas. Outros, afirmam que ele usava as armas dos próprios índios, suas lanças e flechas. Armas que, aliás, eram dadas de presente para ele por aqueles que o temiam e respeitavam.

(…) Por isso, costumam os índios deixar em certo caminho, que por ásperas brenhas vai ter ao interior das terras, no cume da mais alta montanha, quando por cá passam, penas de aves, abanadores, flechas e outras cousas semelhantes, como uma espécie de oblação togando fervorosamente aos Curupiras que não lhes façam mal.”

Mas a morte não era o único mal que um curupira podia causar à suas vítimas. Possuidor de vários poderes e uma inteligencia pra lá de aguçada, o curupira costuma apagar os rastros dos caçadores e deixar novas pegadas levando a caminhos perigosos e cada vez mais profundos mata a dentro. Ao tentarem seguir os próprios rastros para voltarem pra casa, os caçadores acabam se perdendo, se acidentando e, eventualmente, sendo vítimas de alguns dos muitos animais selvagens de nossa fauna. Quando os mais resistentes demoram a morrer ou conseguem achar o caminho de volta independente dos rastros, o curupira costuma jogar um encanto para certificar-se que sua vítima não escape.

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Mas não é só de assassinatos que é feita a rotina dos curupiras. Dentro os poderes atribuídos a criatura está o poder de curar e reviver animais feridos. Muitos dos quais abatidos pelos índios a quem o curupira costuma caçar.

As motivações dele não são exatamente conhecidas. E é improvável que sejam descobertas algum dia. Nas histórias recentes ele aparece como um protetor das matas, que pude os caçadores que caçam além do que precisam. Mas é provável que seja apenas uma forma de educar as crianças contra a ganância, considerado pecado mortal pela religião predominante de nossa época.

Os primeiros relatos sobre o curupira apareceram no sudeste brasileiro, ainda na época do “descobrimento”. Mas com o avanço da colonização e derrubada das matas, foram surgindo histórias em outras partes do país. Muitas vezes com outros nomes e leves alterações físicas. É provável que os curupiras tenham migrado, fugindo da agitação das cidades e se escondido nas partes mais profundas da floresta amazônica.

Hoje, se ainda existem relatos de avistamentos, estes estão perdidos entre as poucas e praticamente incomunicáveis comunidades ribeirinhas. Mas quais as chances dessa criatura ter sido extinta? O mais provável é que estejam apenas escondidas, evitando caçar para não chamarem atenção e serem caçadas, ou verem suas amadas florestas serem incendiadas…

ps.: esse texto e todos os outros sobre mitologia refletem as minhas crenças e foram escritos com base em anos de pesquisa, conversas com pessoas idosas e com meu companheiro animal. Citar fontes nesse tipo de situação é praticamente impossível.

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This entry was published on 11 de September de 2013 at 11:28 and is filed under Brasil, Mitologia. Bookmark the permalink. Follow any comments here with the RSS feed for this post.

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